Copa do Mundo: desperta senso de comunidade, mas também estimula excessos

A Copa do Mundo tem uma força social única: muda horários, altera rotinas e cria um clima coletivo raro no cotidiano. Segundo o psicólogo Luiz Gustavo Lara, docente da Universidade Positivo (UP), isso acontece porque o evento “interrompe o automatismo que domina a vida de muita gente e abre espaço para experiências compartilhadas que normalmente não cabem na rotina rígida”.

Essa combinação de pausa e encontro transforma comportamentos, fortalece vínculos e, ao mesmo tempo, pode ampliar excessos ligados a consumo, sono, alimentação e emoções intensas. A seguir, entendemos esses impactos e como atravessar esse período com leveza e consciência.

A força do pertencimento: como a Copa reforça laços e muda o comportamento coletivo

Um dos efeitos mais visíveis do campeonato é o senso de comunidade que desperta. Para Luiz Gustavo, isso ocorre porque a Copa “tira as pessoas de suas rotinas e cria situações em que vizinhos, familiares e colegas passam a dividir algo em comum, mesmo sem grande planejamento”.

Ele explica que essa conexão não surge do consumo, mas da convivência.

“O laço social não está em consumir o evento, mas em trocar experiências em um momento que favorece a aproximação.” Ao mesmo tempo, esse sentimento expõe algo sobre o cotidiano. “Se a pessoa só se sente parte de algo nesses momentos excepcionais, isso revela o quanto a vida fora desses eventos está automática demais.”

Assim, a Copa aproxima, mas também convida à reflexão sobre os vínculos que são mantidos quando o evento esportivo acaba.

Celebração e rotina: os impactos na saúde mental

O clima festivo traz benefícios claros. Para o psicólogo, “as pessoas se permitem ficar felizes sem precisar se justificar — isso é mais importante do que parece hoje, quando há uma pressão constante por produtividade”, aponta. “A celebração autoriza o sujeito a baixar a guarda e simplesmente desfrutar das emoções. Por isso, durante o evento, muita gente se sente mais viva do que se sente no resto do ano inteiro.”

Mas, além de vivacidade, a mudança na rotina — jogos em horários diferentes, encontros improvisados e deslocamentos incomuns — pode impactar sono, alimentação, consumo de álcool e o ritmo biológico. Muitas vezes, segundo Luiz Gustavo, não é o evento que cria o comportamento excessivo, ele apenas é a desculpa perfeita para justificá-lo. “A Copa não cria o excesso; ela apenas serve de desculpa socialmente aceita para algo que a pessoa já queria fazer. É como se dissesse: ‘agora pode’”, destaca o docente, que faz um alerta: “o risco aumenta quando a pessoa ultrapassa demais seus próprios limites. O bem-estar não depende de nunca exagerar, mas de não se abandonar completamente.”

Emoções intensas: como lidar com euforia, tensão e frustração

Viradas, derrotas e tensão mexem profundamente com as pessoas. No calor da partida, muita gente reage como se algo muito íntimo estivesse em risco e isso distorce as emoções. Frustrações podem gerar irritação, impulsividade e conflitos com pessoas próximas. “As emoções passam, mas as consequências ficam. Não é o momento de tomar decisões financeiras, pessoais ou relacionais”, orienta o psicólogo.

Nesse cenário, vale a atenção ao consumo influenciado por discursos publicitários que ganham força em eventos como a Copa. O docente explica que a responsabilidade social e ambiental, aparece apenas como roupagem para estimular compras. “O consumo aparece como passaporte simbólico de pertencimento. Quando alguém compra algo que não precisava e depois nem sabe explicar o motivo, é sinal de que o impulso venceu a escolha”, observa Luiz Gustavo.

 Por isso, o psicólogo indica que as pessoas recuperem a capacidade de escolher, em vez de apenas reagir ao discurso de urgência de consumo.

Como aproveitar a Copa com bem-estar e consumo consciente

As estratégias mais eficazes são simples. A primeira dica de Luiz Gustavo é não transformar o campeonato em uma permissão irrestrita.

“A principal estratégia é não transformar a Copa em uma justificativa para tudo. Nem para beber em excesso, nem para comer em excesso, nem para gastar além do que se pretendia.”

Outra dica do professor é pensar antes de consumir. “Pergunte-se: ‘eu realmente quero isso ou estou só entrando no embalo?’ Essa pausa muda muita coisa.”

 Além disso, manter cuidados básicos — dormir bem, alimentar-se com qualidade e respeitar os próprios limites — é essencial. Como resume Luiz Gustavo, “a Copa dura algumas semanas, mas o corpo e a mente precisam durar a vida inteira.”

Nesse mesmo espírito de equilíbrio, ele propõe observar os estímulos que empurram o excesso. “Existe uma estrutura inteira organizada para capturar a atenção, criar urgência e estimular o excesso”. Daí vem um equívoco comum: confundir participação com consumo. Como alerta o docente, “existe hoje uma confusão muito grande entre participar de um evento e consumir esse evento, na lógica do consumo propriamente dita, como se vestir a camisa fosse mais importante do que estar presente. Como se comprar substituísse conviver. O que fortalece os vínculos não é o produto temático comprado, que muitas vezes é até uma barreira de acesso a certos grupos orientados pelo consumo, mas a experiência compartilhada.”

No fim, a Copa pode ser uma oportunidade de encontro genuíno. Como observa Luiz Gustavo, “é olhar para o lado e perceber que você não está sozinho. Isso parece simples, mas é cada vez mais raro”. E também um convite ao autoconhecimento:

“Aproveite o momento de lazer também como uma oportunidade de se conhecer melhor e refletir sobre suas escolhas, amizades, laços e sentimentos que ali surgem. A Copa pode ser um momento de alegria, de encontro e de vida.”