O endividamento das famílias brasileiras atingiu um novo recorde histórico em março de 2026: 80,4% dos lares estavam endividados, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Dentro desse universo, 29,6% tinham dívidas em atraso e 12,3% afirmaram não ter condições de pagar seus débitos.
Para o economista Arthur Cassemiro, doutorando pela Unicamp e docente da Universidade Positivo (UP), esse cenário ajuda a explicar por que o crédito rotativo do cartão se tornou tão presente na vida das famílias
“O cartão de crédito é a linha mais fácil e imediata em momentos de aperto financeiro, mas, na prática, o rotativo virou uma das formas mais caras de financiamento para o consumidor brasileiro”, afirma.

O cartão de crédito, inclusive, lidera com folga o ranking das dívidas: ele aparece em cerca de 85% dos casos de endividamento.
O que é o rotativo — e por que ele custa tanto
O crédito rotativo entra em ação quando o consumidor não paga o valor total da fatura do cartão e quita apenas uma parte, geralmente o mínimo. O saldo restante é automaticamente financiado, com juros elevados.
Como explica o professor Arthur, “o restante da dívida é empurrado para o mês seguinte com juros muito altos”. Ele chama atenção para a aparente facilidade desse tipo de crédito: “muita gente acaba utilizando sem perceber o custo real dessa dívida”.
Essa combinação — acesso simples e juros extremamente elevados — ajuda a explicar por que o rotativo se tornou uma das modalidades mais onerosas do país.
Mesmo assim, muitos consumidores acabam recorrendo a ele em momentos difíceis, como aponta o docente.
“Em situações de aperto, o rotativo funciona como uma ‘válvula de sobrevivência’, mesmo sendo muito caro. Conseguir um empréstimo pessoal pode exigir análise, burocracia ou até negativa do banco. Já o rotativo é automático: basta pagar apenas parte da fatura.”

Um problema estrutural: renda pressionada e pouca educação financeira
O aumento do endividamento não é apenas resultado de escolhas individuais. Ele reflete um contexto mais amplo, marcado por custo de vida elevado e perda de poder de compra.
Segundo Arthur, fatores como a inflação de itens básicos pressionam o orçamento das famílias. Ao mesmo tempo, a falta de educação financeira dificulta a tomada de decisão. “Muita gente não entende como funcionam juros compostos, parcelamentos e crédito rotativo”, afirma
Essa combinação agrava o problema, indica o economista.
“A dívida cresce rapidamente e começa a consumir parte importante do salário da família, afetando consumo, alimentação e até despesas básicas.”
É nesse cenário que o rotativo aparece como um exemplo clássico do efeito de bola de neve financeira: quando o orçamento já está apertado, pagar apenas parte da fatura empurra o restante para o mês seguinte — e os juros passam a se acumular sobre um saldo que não para de crescer.
A bola de neve do cartão
Na prática, o que parece um alívio no curto prazo vira uma dívida que se retroalimenta. “Os juros vão sendo incorporados à dívida todos os meses. Então não cresce apenas o valor inicial: crescem também os juros sobre os juros”, explica o economista.
Com isso, uma dívida pequena pode rapidamente se tornar difícil de pagar. Um dos comportamentos mais arriscados é pagar apenas o valor mínimo da fatura. “Muitas pessoas têm a sensação de que estão em dia, mas, na prática, o saldo devedor continua crescendo”, alerta Arthur.
Esse é apenas um dos erros mais comuns no uso do cartão de crédito — e um dos fatores que ajudam a explicar por que tantas pessoas acabam presas ao rotativo.

Erros frequentes no uso do cartão
Entre os principais erros no uso do cartão de crédito, o economista destaca:
“Individualmente parecem valores baixos, mas somados comprometem boa parte da renda futura”, explica Arthur. “Também existe a falsa sensação de que está tudo sob controle, uma vez que o nome não está negativado — ou seja, ainda não houve inclusão em cadastros de inadimplentes —, o que faz muita gente continuar usando o cartão mesmo já estando endividada.”

Como evitar cair no rotativo
A principal orientação do docente é ter planejamento e organização financeira. Ele lista algumas práticas que ajudam a manter o controle:
“O cartão pode até trazer benefícios, como milhas e cashback, mas isso só acontece quando há controle”, afirma.
Em momentos de aperto, buscar alternativas mais baratas faz diferença. Modalidades como empréstimo consignado ou crédito pessoal costumam ter juros menores do que o rotativo. “O importante é comparar taxas e renegociar antes que a dívida cresça demais”, orienta Arthur.
Desenrola Brasil: ajuda, mas não resolve sozinho
Diante do avanço do endividamento, o governo federal lançou novas etapas do programa Desenrola, voltadas à renegociação de dívidas.
A iniciativa oferece descontos e melhores condições de pagamento, mas não resolve o problema estrutural.
“A existência desse tipo de programa mostra que o endividamento deixou de ser apenas um problema individual e passou a ser também uma questão econômica e social”, afirma o economista.
Para quem já está endividado, Arthur recomenda agir rapidamente: “o principal é não ignorar a dívida, buscar renegociação e reorganizar o orçamento”. Ele reforça que sair do endividamento leva tempo.
“É um processo gradual — e o pior caminho costuma ser continuar acumulando dívida no cartão.”
No fim, a principal lição é clara: evitar o crédito rotativo começa antes de a fatura chegar. Em um cenário de endividamento recorde no país, planejar o uso do crédito deixou de ser apenas recomendável — e se tornou essencial.






