Quando a notícia é um conflito do outro lado do planeta, é comum pensar que o impacto fica restrito aos mapas e às manchetes. Mas, no caso da atual tensão envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, o efeito tende a atravessar fronteiras e chegar ao cotidiano — principalmente pelo caminho da energia e do transporte. Quem explica é Ricardo Ghizi Corniglion, professor de Geopolítica da PUC Minas e coordenador do curso de Administração da universidade. Para ele, trata‑se de um conflito com forte potencial inflacionário, capaz de encarecer combustíveis, fretes, seguros e, em cadeia, diversos produtos do dia a dia.

O que está acontecendo — e por que o mundo está olhando
Na avaliação do professor, este é um tipo de conflito que está muito mais próximo do cidadão comum do que outras guerras, justamente porque atinge um ponto sensível da economia global: a energia. Quando há instabilidade em regiões que exportam petróleo e gás natural — ou aumento do risco em rotas estratégicas — o mercado costuma reagir com alta de preços, elevando custos de transporte e produção em diferentes países.
Um dos epicentros da preocupação é o Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde circula parte relevante do petróleo comercializado no mundo. Ricardo destaca que não é necessário um bloqueio formal: a simples percepção de risco naquela região já é suficiente para encarecer fretes marítimos e elevar o custo dos seguros das cargas, pressionando preços ao longo das cadeias globais.

O que muda primeiro na economia em um conflito desse porte
O primeiro impacto costuma aparecer nos preços ligados à energia e ao transporte. Com o petróleo mais caro, sobem gasolina, diesel, querosene de aviação e bunker – combustível marítimo. Isso eleva o custo do transporte rodoviário, aéreo e marítimo e pressiona preços ao longo das cadeias produtivas.
Em paralelo, a elevação do risco nas rotas comerciais tende a aumentar os custos logísticos de forma mais ampla, dificultando a circulação de mercadorias e dando força à inflação — mesmo em países distantes da região do conflito.
Quando a inflação sobe, a reação típica é monetária.
“Geralmente os bancos centrais no mundo tendem a aumentar a taxa de juros”, diz Ricardo.
Juros mais altos esfriam a economia e desestimulam projetos produtivos: com maior retorno no mercado financeiro, parte dos empresários adia investimentos e espera, o que pode reduzir o ritmo de crescimento.
No Brasil, o movimento recente indica cautela. Na última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por reduzir a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, em um ritmo menor do que o observado anteriormente. A sinalização foi de prudência: embora o ciclo seja de flexibilização, o Banco Central mantém atenção a riscos externos — como choques no preço do petróleo e da energia — que podem pressionar a inflação à frente.
Como isso aparece no dia a dia — mesmo para quem não acompanha política internacional
Mesmo quem não acompanha o noticiário internacional sente o efeito porque quase tudo o que chega ao consumidor depende de transporte.
“Tudo que a gente compra teve que ser transportado”, lembra Ricardo.
Uma alface precisa sair do campo e chegar à cidade; uma televisão, da fábrica até o shopping. Quando o custo desse deslocamento sobe, o impacto aparece diretamente no bolso.
Além dos combustíveis, o petróleo é base para uma cadeia extensa de derivados — entre eles, o plástico. Quando o preço da commodity sobe, o custo do plástico na indústria petroquímica também aumenta, o que contribui para o encarecimento de embalagens e de diversos itens do consumo cotidiano.
Por que o Oriente Médio pesa tanto no preço do petróleo (e na energia que usamos aqui)
O Oriente Médio segue sendo estratégico porque concentra produção e escoamento de petróleo e gás natural. Ricardo lembra que o petróleo ainda responde por cerca de 32% da matriz energética global, o que ajuda a explicar por que oscilações relevantes nessa região acabam se refletindo em preços e inflação ao redor do mundo.
No Brasil, há um amortecedor parcial: a presença do etanol e a mistura obrigatória de biocombustível na gasolina, o que reduz parte da pressão sobre o consumidor. Ainda assim, o professor chama atenção para o ponto mais sensível: o diesel. Segundo ele, o país importa uma fatia relevante do combustível consumido internamente, o que deixa preços e risco de abastecimento mais expostos a choques externos.

Não é só combustível: por que a crise pode chegar ao preço de produtos e serviços
Quando energia e transporte encarecem, o repasse tende a aparecer em diferentes setores, como supermercados, serviços, indústria e construção. Na prática, a alta do petróleo costuma se espalhar pela economia, tanto pelo custo do frete quanto pelo encarecimento de insumos associados à cadeia energética.
Outro canal menos óbvio está no agronegócio. Segundo Ricardo, a região do Oriente Médio e do entorno do Golfo Pérsico responde por cerca de 30% dos fertilizantes consumidos no mundo. Se esse fluxo sofre atrasos, a produção agrícola pode ser impactada e, alguns meses depois — no período de colheita — a menor oferta tende a pressionar os preços dos alimentos.
Em geral, combustíveis e passagens sentem o impacto mais rapidamente, enquanto alimentos e bens industrializados podem levar semanas ou meses, dependendo de estoques e contratos. Para o professor, mesmo que o conflito perca força, o choque não se desfaz de imediato.
“Esses efeitos vão continuar sendo sentidos possivelmente até o final do ano”, afirma, ao explicar que preços e cadeias de suprimento demoram a se reacomodar.
O Brasil perde mais do que ganha — mas há setores que se beneficiam
Para Ricardo, o Brasil tende a sentir prejuízos principalmente pelo comércio e pela logística. O país exporta alimentos para países do Oriente Médio e, com o aumento do risco na região, algumas rotas podem ser evitadas ou sofrer atrasos. “As empresas que exportam para aquela região tendem a enfrentar paralisações nas vendas, e o custo do transporte acaba aumentando para todos”, afirma.
Ao mesmo tempo, alguns setores podem sair favorecidos. Com o barril em patamar mais elevado, empresas de petróleo tendem a registrar resultados melhores. “Para companhias do setor, como a Petrobras, a alta do preço do barril se traduz em ganhos”, diz o professor, embora ressalte que esse movimento pesa no bolso do consumidor.


O que costuma acontecer com investimentos e mercados em períodos de instabilidade
Em momentos de tensão geopolítica, a palavra‑chave é incerteza — e ela costuma reduzir o apetite por risco. “Geralmente as guerras são inimigas dos negócios”, afirma Ricardo, porque geram insegurança política e econômica.
Com inflação pressionada e juros mais elevados, investidores e empresas tendem a buscar proteção e liquidez. Nesse cenário, muitos projetos de expansão ficam em compasso de espera, à medida que empresários adiam decisões até que o horizonte internacional se torne mais previsível.
E para quem investe pensando no longo prazo (como na previdência): qual orientação seguir
Para quem contribui mensalmente com um plano de previdência e está construindo patrimônio para o futuro, a principal recomendação é evitar decisões precipitadas e reforçar a disciplina financeira.
O professor sugere acompanhar, na prática, a evolução do custo de vida e do cenário econômico, observando “o preço das mercadorias que costumam consumir regularmente” e acompanhando o noticiário brasileiro e internacional para entender o rumo do conflito.
Em meio a tanta volatilidade, a orientação mais objetiva é simples — e vale para diferentes perfis de renda. “Cautela nos gastos”, orienta Ricardo. Para ele, este é um momento de prudência em que vale economizar no que for possível e evitar despesas supérfluas, ao menos até que o cenário internacional fique mais claro e os impactos do conflito sejam mais bem dimensionados.
Mais do que acompanhar as manchetes, o professor reforça que entender como tensões geopolíticas se traduzem em preços mais altos, juros, investimentos e custo de vida ajuda as famílias e os trabalhadores a tomar decisões mais conscientes, com foco no longo prazo e na preservação do orçamento.
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Sempre alerta!
Quando o assunto é investimento, sua análise precisa se basear no momento pelo qual passa o mercado financeiro, nas características da aplicação, e na adequação ao seu perfil de investidor. Os desempenhos, sejam de sua carteira pessoal ou da sua modalidade de investimento no plano de aposentadoria da Funsejem, devem ser considerados apenas como referência de gestão, e não como fator determinante para sua escolha, pois resultados passados não garantem rentabilidade futura.






