Eles parcelam, acompanham o limite pelo aplicativo, recebem alertas em tempo real e acreditam que está tudo sob controle. Mas não está.
O número de jovens superendividados dobrou em menos de uma década no Brasil, de acordo com um levantamento do Banco Central – um avanço que, à primeira vista, contraria a ideia de uma geração mais conectada, informada e equipada com ferramentas digitais de gestão financeira. Na prática, o que se consolidou foi um cenário em que o acesso ao crédito nunca foi tão simples — e o risco, tão invisível.
Para o especialista em economia e professor Filipe Martins, o fenômeno não pode ser explicado por um único fator. Ele combina pressão econômica, comportamento e, principalmente, a forma como o crédito passou a ser ofertado.
“Atualmente é possível contratar crédito em poucos minutos pelo celular. Quando essa facilidade não é acompanhada de educação financeira, o crédito deixa de ser uma ferramenta de apoio e passa a ser um fator de risco”, afirma.
Mais do que facilidade, a tecnologia alterou a própria percepção do consumo. Sem o dinheiro físico, sem o ato de pagar e com parcelas diluídas no tempo, o gasto se torna abstrato e mais fácil de justificar. “Diversas plataformas apresentam parcelas reduzidas e processos extremamente simplificados, gerando a sensação de que a dívida está sob controle”, diz Filipe. A lógica, porém, é enganosa: “A facilidade de contratação não reduz o custo financeiro da operação”.
É nesse ponto que surge uma das marcas do comportamento financeiro atual: a ilusão de controle. O jovem acompanha números na tela, soma pequenas parcelas e acredita que domina a própria vida financeira — enquanto, na prática, compromete a renda futura em um efeito cumulativo que pode fugir rapidamente do controle.
Uma mudança de geração e de mentalidade
Mas a mudança não está apenas nas ferramentas — está também na forma como os jovens se relacionam com o dinheiro.
Diferentemente das gerações anteriores, que construíram seus hábitos financeiros em um contexto de instabilidade econômica e hiperinflação, os jovens de hoje cresceram em um ambiente de maior previsibilidade monetária e forte digitalização dos serviços financeiros. O resultado é uma relação menos defensiva e mais imediatista com o consumo.
“As gerações anteriores desenvolveram uma relação mais cautelosa com o dinheiro, muito ligada à necessidade de planejamento. Já os jovens de hoje estão inseridos em um ambiente em que o consumo pode ser realizado imediatamente e o pagamento transferido para o futuro”, explica o docente.

Essa mudança não é trivial. Ao mesmo tempo em que a tecnologia trouxe praticidade e ampliou o acesso, ela também reduziu o peso simbólico do gasto. O dinheiro deixou de ser algo físico, visível e limitado para se tornar um fluxo contínuo de pequenos valores — facilmente parcelados, muitas vezes diluídos e quase sempre distantes no tempo.
Na prática, isso cria um cenário em que gastar dói menos — e, justamente por isso, acontece mais. Como resume o professor, a digitalização “tornou as decisões de consumo mais rápidas e, em alguns casos, mais impulsivas”.
Crédito em um clique e o risco diluído
Esse novo comportamento encontra um terreno fértil na forma como o crédito passou a ser oferecido. Nos últimos anos, fintechs, bancos digitais e plataformas redesenharam completamente o acesso ao dinheiro, tornando-o mais rápido, mais simples e, sobretudo, mais presente no cotidiano.
Hoje, contratar crédito deixou de ser uma decisão pontual, cercada de reflexão, para se tornar quase automática. Em poucos cliques, é possível aumentar limites, parcelar compras ou acessar empréstimos diretamente pelo celular, muitas vezes sem tempo ou estímulo para avaliar o impacto real da decisão. “Essa transformação trouxe benefícios importantes para a inclusão financeira, mas também aumentou a exposição ao risco de endividamento”, afirma Filipe.

Entre os formatos que mais cresceram está o Buy Now, Pay Later (BNPL), que significa compre agora, pague depois e permite comprar imediatamente e adiar o pagamento em parcelas. A lógica parece conveniente. O problema é que ela desloca o foco da decisão. “Muitas vezes, o consumidor concentra sua atenção na parcela e deixa de avaliar o custo total da compra”, explica. “O acúmulo de diversas compras parceladas pode comprometer a renda futura, anulando qualquer benefício inicial.”
Parcelas pequenas, limites disponíveis e interfaces intuitivas reforçam a sensação de controle. Mas, na prática, o que se constrói é um endividamento gradual: feito de decisões repetidas, quase imperceptíveis, que se acumulam ao longo do tempo.
O consumo como pertencimento
Se o crédito ficou mais fácil, o desejo de consumir também ganhou novas camadas. Hoje, ele não nasce apenas da necessidade, mas da exposição constante a estilos de vida nas redes sociais. Muitas vezes, idealizados.
Viagens, produtos e experiências passam a funcionar como referência de pertencimento. Consumir, nesse contexto, deixa de ser apenas uma decisão financeira e passa a carregar um valor simbólico: é também uma forma de se inserir, de mostrar e de validar uma imagem
“As redes sociais exercem influência significativa sobre os hábitos de consumo. Há uma pressão por padrões que, muitas vezes, não correspondem à realidade financeira da maioria das pessoas”, aponta Filipe.

O crédito, então, deixa de ser apenas uma ferramenta e passa a sustentar um estilo de vida. “Em muitos casos, é usado para manter um padrão ou uma imagem de sucesso”, destaca.
Nesse ambiente, decisões rápidas e pouco refletidas se tornam a regra, e o endividamento surge como consequência, não como exceção.

Os erros que parecem pequenos — mas não são
Na prática, o superendividamento raramente começa com uma decisão extrema. Ele se constrói no cotidiano, a partir de escolhas normalizadas.
Entre os erros mais comuns está o uso do cartão de crédito como extensão da renda. “Muitos jovens pagam apenas o valor mínimo da fatura, acumulam parcelamentos e contratam crédito para financiar consumo”, destaca o docente.
Outro equívoco recorrente está na lógica das parcelas. Ao diluir o valor de uma compra, o impacto imediato parece pequeno — mas o custo total permanece. “Muitas pessoas acreditam que pequenas parcelas não comprometem a renda, mas, quando somadas, podem representar uma parcela expressiva do orçamento mensal”, explica.
O resultado é uma bola de neve. Novas despesas surgem, a renda permanece limitada e o crédito passa a financiar o próprio endividamento. Nesse estágio, o que antes parecia controle se transforma em dificuldade de administrar prazos, valores e prioridades.
Entre o acesso e a responsabilidade
Diante desse cenário, a solução não está em restringir o crédito, mas em redefinir seu uso.
No curto prazo, medidas como controle do orçamento, renegociação de dívidas e redução do uso de crédito para gastos não essenciais ajudam a reorganizar as finanças. “Um acompanhamento mais próximo dos gastos já faz diferença significativa”, afirma Filipe.
No longo prazo, o caminho passa pela educação financeira. “É fundamental avançar além dos conceitos teóricos e desenvolver hábitos práticos desde cedo”, pontua.
Esse esforço também envolve políticas públicas voltadas à geração de emprego e renda, um fator estrutural que influencia diretamente a capacidade de pagamento dos jovens.
No fundo, o desafio é encontrar equilíbrio.
“O crédito continua sendo uma ferramenta importante, mas exige planejamento e responsabilidade para que a utilização deste recurso não se transforme em exclusão econômica”, finaliza o professor.


Filipe Martins, especialista em economia e docente nos cursos de Gestão do Centro Universitário Cesuca, da região metropolitana de Porto Alegre (RS).






