Pós-Copom: o risco das decisões impulsivas

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), ocorrida nos dias 16 e 17 de junho de 2026, o Banco Central reduziu a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual. A taxa passou de 14,50% para 14,25% ao ano. Diante da mudança, é comum que muitos corram para rever suas aplicações e ajustar rapidamente suas carteiras. Mas esse impulso, embora pareça lógico, pode ser justamente o maior erro.

“A Selic é o ‘termômetro’ da economia brasileira; ela dita o custo do dinheiro, o rendimento da renda fixa e o apetite por risco”, explica o especialista em economia Marco Aurélio da Silva. Segundo ele, a forte exposição das decisões do Copom e a frequência com que ocorrem acabam criando um senso de urgência artificial. “O investidor confunde a relevância do indicador com a necessidade de tomar uma atitude imediata, reagindo ao calor do momento em vez de olhar para a sua estratégia original.”

Na prática, esse comportamento costuma se traduzir em um vai e vem de recursos que, longe de agregar valor, pode comprometer os resultados ao longo do tempo. O especialista observa que muitos investidores tentam “ganhar do mercado” a cada ciclo de juros.

“Quando a Selic sobe, correm para resgatar fundos de ações ou multimercados — muitas vezes, realizando prejuízo — para travar o dinheiro em um CDB ou título pós-fixado. Quando cai, fazem o inverso de forma abrupta.”

O ‘realizar prejuízo’ acontece quando o investidor vende um ativo por um valor menor do que o que pagou, transformando uma perda que poderia ser apenas momentânea, sujeita à recuperação, em um prejuízo efetivo. Ou seja, ao sair do investimento no pior momento, ele cristaliza a perda e perde a oportunidade de recuperação no longo prazo.

“Esse movimento revela um desalinhamento clássico entre o prazo do investimento e o prazo dos objetivos pessoais, um erro recorrente entre diferentes perfis de investidor”, destaca Marco Aurélio.

Outro ponto que ajuda a explicar decisões precipitadas é o foco quase exclusivo na taxa básica de juros, sem considerar o contexto mais amplo. O especialista chama a atenção para o fato de que a Selic não se move isoladamente, mas responde a fatores como inflação, cenário fiscal, câmbio e o comportamento dos juros internacionais. “Focar apenas na decisão do Copom é olhar para o efeito, ignorando a causa”, afirma.

Essa leitura parcial pode levar a conclusões equivocadas. Um juro aparentemente elevado, por exemplo, não garante ganho real expressivo se vier acompanhado de inflação alta, um aspecto que tende a ficar em segundo plano quando predomina o imediatismo.

Além disso, a tentativa de ajustar a carteira a cada reunião do Copom traz custos concretos. “Girar a carteira frequentemente — ou seja, comprar e vender investimentos com muita frequência — gera três grandes perdas de rentabilidade: custos de transação (como taxas e corretagem), perda de eficiência fiscal (com pagamento maior de Imposto de Renda ao resgatar antes do prazo ideal) e o risco de comprar na alta e vender na baixa”, afirma.

Para ele, a experiência mostra que insistir nesse movimento raramente compensa. “O custo de tentar adivinhar o timing do mercado — isto é, o momento exato de entrar ou sair de um investimento — supera, de longe, o benefício de uma postura paciente.”

O peso das emoções

Se os fatores econômicos já exigem cautela, o componente comportamental torna o cenário ainda mais desafiador.

“As finanças comportamentais nos mostram que a dor da perda é duas vezes maior do que o prazer do ganho”, explica.

Em momentos de maior visibilidade — como após as decisões do Copom —, esse efeito se combina ao chamado FOMO (sigla em inglês, Fear of Missing Out, que significa medo de ficar de fora), levando o investidor a agir para reduzir a ansiedade. “Ele não age porque a lógica econômica mudou, mas para aliviar o desconforto emocional.”

Para participantes de planos de previdência, como os da Funsejem, esse tipo de reação pode ter consequências ainda mais relevantes. Diferentemente de aplicações voltadas ao curto prazo, a previdência é construída com foco de décadas e depende da disciplina e do efeito dos juros compostos.

“O principal risco é desvirtuar a engrenagem do próprio plano”, alerta. “Mudar de perfil de investimento de forma impulsiva por causa de uma oscilação da Selic pode travar prejuízos — isto é, transformar uma perda momentânea em perda definitiva ao sair do investimento no pior momento — em cenários de marcação a mercado desfavorável — quando o valor dos títulos cai temporariamente por causa da alta dos juros, por exemplo – e comprometer o montante acumulado para a aposentadoria.”

Nesse contexto, ele reforça que a estratégia mais eficiente passa pela consistência. Em vez de reagir a cada movimento, o investidor deve confiar na lógica de diversificação e na gestão profissional dos planos de previdência. “Os ciclos de juros sobem e descem, mas, no longo prazo, essas oscilações se compensam. O foco deve estar na regularidade das contribuições”, afirma.

O desafio, porém, está em manter essa disciplina diante do ruído do curto prazo. Segundo o especialista, isso tem explicação no próprio comportamento humano. “O nosso cérebro prioriza o imediato. Uma oscilação de 0,25 ponto na taxa de juros parece urgente, enquanto a aposentadoria daqui a 20 anos parece algo distante demais.”

Como evitar decisões precipitadas após o Copom

Se a reação impulsiva pode comprometer resultados, a disciplina passa por adotar práticas simples e consistentes, como orienta Marco Aurélio.

Deixar as contribuições no modo automático ajuda a diluir riscos ao longo do tempo, já que o investimento regular compra cotas tanto na alta quanto na baixa, gerando um preço médio mais eficiente.

Quando você define uma meta de longo prazo — como a independência financeira daqui a 15 ou 20 anos —, a oscilação da Selic, a cada novo anúncio da política monetária, deixa de ser assustadora.

Se o seu plano é previdenciário, olhar a rentabilidade toda semana só gera ansiedade desnecessária. O ideal é avaliar em janelas mais longas, como 12, 24 ou 36 meses.

Lembre-se de que existem especialistas calibrando os fundos diariamente, como é o caso da Funsejem. Confie na governança do plano e no processo de investimento.

Para quem busca tomar decisões mais conscientes, o especialista reforça que a Selic deve ser apenas um dos elementos da análise. Entre outros indicadores que merecem atenção estão:

  • inflação implícita, para entender o ganho real
  • curva de juros futuros, que mostra o que o mercado já precificou
  • risco fiscal do país
  • comportamento dos juros globais

Ainda assim, ele destaca que o principal indicador não está no mercado. “O mais importante é o cronograma das próprias metas financeiras. É ele que deve orientar as decisões, não o movimento de curto prazo.”

Previdência exige método – não reação

No caso dos planos de previdência, o alinhamento com o cenário econômico não se dá por mudanças rápidas, mas por estrutura. “O ajuste acontece por meio da diversificação estruturada e do rebalanceamento passivo”, explica Marco Aurélio.

Segundo ele, os planos já contam com alocação em diferentes classes de ativos, como títulos atrelados à inflação, prefixados, pós-fixados e ações, justamente para atravessar diferentes ciclos econômicos. “Os juros sobem e descem, mas no longo prazo essas oscilações se compensam. O foco deve ser na regularidade das contribuições, permitindo que o gestor aproveite as oportunidades de cada ciclo.”

Tempo – e não timing

No fim, a lógica da previdência é clara: consistência supera reação. “A maior riqueza na previdência não vem de acertar a máxima da taxa de juros, mas sim do tempo de exposição dos juros sobre os juros”, finaliza o especialista.

  • Sempre alerta!

    Quando o assunto é investimento, sua análise precisa se basear no momento pelo qual passa o mercado financeiro, nas características da aplicação, e na adequação ao seu perfil de investidor. Os desempenhos, sejam de sua carteira pessoal ou da sua modalidade de investimento no plano de aposentadoria da Funsejem, devem ser considerados apenas como referência de gestão, e não como fator determinante para sua escolha, pois resultados passados não garantem rentabilidade futura.

Marco Aurélio da Silva, especialista em economia, consultor de empresas em Negócios Internacionais e docente do curso de Comércio Exterior da FSG - Centro Universitário da Serra Gaúcha.