Dormir pouco e os riscos à saúde

Dormir pouco virou parte da rotina de milhões de pessoas e, muitas vezes, é até visto como sinal de produtividade. Mas o que parece normal acende um alerta global. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 40% da população mundial sofre com algum tipo de distúrbio do sono.

Nesse cenário, especialistas chamam atenção para hábitos cada vez mais comuns, como dormir em horários diferentes ao longo da semana e tentar compensar o cansaço no fim de semana — práticas que podem trazer impactos reais à saúde.

Para o médico Carlos Filipe Moraes Coimbra, docente do curso de Medicina do Centro Universitário Cesuca, o problema começa na forma como o sono é encarado no dia a dia e isso influencia diretamente o comportamento da população.

“A privação de sono tem sido, inclusive, socialmente consagrada como um sinal de produtividade e dedicação. Muitas pessoas enxergam o sono como um luxo, algo negociável, quando na verdade ele é um dos pilares da saúde”, afirma.

Quando o corpo perde o ritmo

Esse padrão de comportamento está diretamente ligado ao chamado ‘jet lag social’, fenômeno cada vez mais frequente na sociedade atual. Segundo Carlos Filipe, trata-se de uma discrepância entre o relógio biológico — o chamado ritmo circadiano — e os horários impostos pela rotina. “É como se o organismo fosse submetido a um desalinhamento constante entre o seu relógio interno e as exigências sociais. Isso pode afetar até 70% da população e gera uma desorganização importante do funcionamento do corpo”, explica.

Essa desregulação não é apenas uma questão de cansaço. Ela interfere em processos essenciais, como a liberação de hormônios, o metabolismo e o equilíbrio energético. De acordo com o especialista, esse cenário pode favorecer alterações como aumento de peso, alterações no colesterol e dificuldade no controle da glicose — fatores diretamente relacionados a doenças crônicas.

O mito de recuperar o sono perdido

A tentativa de compensar noites maldormidas aos fins de semana é comum, mas tem efeito limitado. O médico explica que esse comportamento até pode trazer benefícios pontuais, como melhora do humor e da disposição, mas não resolve o problema de fundo. “O sono de recuperação pode gerar alívio temporário, mas não previne a desregulação metabólica associada à privação crônica de sono. E quando feito de forma irregular, pode inclusive agravar o desalinhamento do relógio biológico”, afirma.

Na prática, isso significa que o organismo continua sob estresse, mesmo após horas extras de descanso.

Regularidade importa, e muito

Mais do que quantas horas se dorme, o que faz diferença é ter uma rotina  com horários regulares para dormir e acordar. Estudos recentes mostram que variações aparentemente pequenas, de até uma hora nos horários de dormir e acordar, já podem estar associadas a um aumento significativo no risco de desenvolver problemas como apneia do sono e hipertensão.

Para o especialista, esse resultado não surpreende.

“A irregularidade do sono interfere diretamente na regulação circadiana da pressão arterial — controle natural desse índice ao longo do dia e da noite. O corpo precisa saber quando é hora de reduzir e quando é hora de elevar a pressão. Sem um padrão, essa organização se perde”, explica.

Esse descompasso afeta um mecanismo natural do organismo, no qual a pressão arterial diminui durante o sono e volta a subir ao acordar. Quando esse ciclo é afetado, o risco cardiovascular aumenta.

Mais do que cansaço: impactos no corpo

Segundo Carlos Filipe, a desorganização do sono afeta diferentes sistemas do organismo ao mesmo tempo. “A disrupção do ritmo circadiano afeta a regulação da pressão arterial por diferentes mecanismos, como alterações no sistema nervoso, nos hormônios, inflamação e no funcionamento dos vasos sanguíneos — fatores conhecidos por estarem ligados ao aumento do risco cardiovascular”, esclarece.

Além disso, existe uma relação direta com a apneia do sono, um distúrbio caracterizado por interrupções na respiração durante a noite. Nesse caso, a relação é ainda mais complexa:

Quem está mais exposto

Na prática, os efeitos da falta de regularidade no sono são ainda mais evidentes em determinados grupos.

“Trabalhadores em turnos e pessoas com rotinas instáveis têm maior risco de desenvolver problemas como doenças cardíacas, diabetes, AVC e até câncer ao longo do tempo”, afirma o médico.

Pequenas mudanças, grandes diferenças

Apesar dos riscos, há caminhos possíveis e eles começam por mudanças de hábito. De acordo com o especialista, intervenções comportamentais simples já têm impacto significativo na qualidade do sono.

“Manter um horário regular para acordar todas as manhãs é uma das estratégias mais importantes. Além disso, é fundamental associar a cama exclusivamente ao sono e evitar estímulos que prejudiquem o processo de relaxamento”, orienta.

Outras medidas incluem reduzir a exposição a telas antes de dormir, evitar cochilos longos durante o dia e manter uma rotina que favoreça o descanso. Carlos Filipe reforça que a ideia central é ajudar o organismo a reconhecer padrões. “A mudança de hábitos exige paciência e consistência. Não se conserta anos de sono irregular em poucos dias”, destaca.

Nesse sentido, o médico faz um alerta:

“se mesmo após ajustar a rotina e melhorar a higiene do sono, você continuar acordando exausto, apresentando sonolência excessiva durante o dia, ou se parceiros relatarem ronco alto e pausas na respiração durante a noite (sinais de apneia do sono), é fundamental buscar uma avaliação médica. Distúrbios como a apneia obstrutiva do sono e a insônia crônica têm tratamento, e intervir precocemente é a melhor forma de proteger o coração e o cérebro a longo prazo.”

Mais do que um momento de descanso, o sono é fundamental para a recuperação do organismo, o equilíbrio metabólico e a prevenção de doenças. “O sono de qualidade — tanto em duração quanto em regularidade — deve ser encarado como um dos pilares essenciais da saúde, ao lado da boa alimentação e da prática de exercícios físicos”, conclui.

Carlos Filipe Moraes Coimbra, é médico especialista em Medicina da Família e Comunidade, docente de Semiologia e Temas Integradores do Curso de Medicina do Centro Universitário Cesuca.